A História
Nelson Athanásio - Técnico, organizador da formação e criador da companhia de Bombeiros de Alagoas
O COMEÇO
No ano da criação da Formação de Bombeiros, Maceió possuía uma população de trinta e cinco mil habitantes e era uma cidade relativamente pequena. O comércio era desprovido de indústrias, caracterizando-se pelo aspecto colonial. Assim sua dotação tanto de equipamentos como de homens atendia plenamente a cidade e zonas vizinhas.
Governava o Estado de Alagoas o Ex.mo. Sr. Silvestre Péricles de Goes Monteiro, tendo como Secretário da Segurança Pública o Dr. Antônio Goes Ribeiro, e o Cel Osman LoPES comandava a Força Policial Militar.
A publicação da citada lei foi acompanhada de tabelas, referentes a pessoal, material e despesas outras, tudo fazendo crer que o orçamento para o exercício de1948, trouxesse as dotações existentes das referidas tabelas. Acontece, porém, que publicado o orçamento de 1948 na Polícia Militar do Estado de Alagoas, verba –10 vê-se que estão incluídas tão somente as dotações ordinárias da sua organização, sem inclusão, portanto, da Formação de Bombeiros, então criada.
A Secretaria da Fazenda e da Produção fez entrega à Força Militar da quantia de Cr$300.000,00 (TREZENTOS MIL CRUZEIROS), constante do crédito especial aberto pela lei de criação da Formação de Bombeiros, e de Cr$290.805,00 (DUZENTOS E NOVENTA MIL OITOCENTOS E CINCO CRUZEIROS) por agente responsáveis, complemento da importância de material permanente da instalação da Formação de Bombeiro.
O então Secretário da Fazenda e da Produção, Dr. ADALBERON C. LINS, sugeriu ao Ex.mo. Sr. Governador do Estado que, em face da omissão verificada no orçamento de 1948 das dotações precisas no caso em tela, as despesas com a Formação de Bombeiros fossem custeadas pelas dotações da Força Policial Militar, devido à ligação existente entre as mesmas, sem a exigência duodecimal, recomendada pelo então Governador do Estado, devendo no início do segundo semestre de 1948 ser providenciado o reforço necessário. Tal medida sugerida pelo então Secretário da Fazenda e da Produção foi o meio de não ser prejudicado o funcionamento da Formação de Bombeiros.
Em entrevista ao 2º Ten BM Buriti, datada de 15 de Junho de 2000, na sua residência no Estado do Rio de Janeiro, o Major Nelson Athanásio hoje aos oitenta e oito anos de idade relatou, a cerca da criação do Corpo de Bombeiros do Estado de Alagoas, o seguinte:
“Que a criação do Corpo de Bombeiros do Estado de Alagoas, foi a pedido do então Governador do Estado, Dr. Silvestre Péricles de Góes Monteiro irmão do General Góes Monteiro – General da Guerra e do Senador Ismar de Góes Monteiro. O Dr. Silvestre Péricles se interessou em ter um Corpo de Bombeiros para a defesa do Estado. Foi pedido ao Corpo de Bombeiros do Estado da Guanabara que nesta ocasião era comandado pelo Coronel Augusto Imbassahi. O Coronel Imbassahi me encaminhou ao Ministério da Justiça e este me encaminhou ao Governador do Estado de Alagoas.
Ao chegar à cidade de Maceió, capital de Alagoas apresentei-me ao Governador do Estado, e o mesmo perguntou-me se gostaria de ficar hospedado no Quartel da Polícia Militar. Respondi então que poderia, mas preferia ficar hospedado em um hotel da cidade para ter mais liberdade para escrever meus relatórios, executar meus estudos e tomar todas as informações necessárias para a formação e criação do Corpo de Bombeiros, (a que eles deram o título de FORMAÇÃO DE BOMBEIROS), que teve a influência do Comandante da Polícia Militar do Estado de Alagoas – Coronel Osman Lopes. Eu falei que era um grupo de bombeiros como aqueles que me foram mandados. Fiz um relatório e um levantamento das imediações da cidade de Maceió e levantamento de ações. Depois encaminhei ao Governador, e este encaminhou à Assembléia Legislativa e esta aprovou. “Eu tinha pedido que fosse dada uma gratificação especial para o pessoal (que foi concedida) e que fosse aberto um crédito para adquirir material, porque não havia material algum. Só havia dois ou três hidrantes subterrâneos, inclusive um desses hidrantes eu usei no principio de incêndio com grande resultado. O pessoal trabalhou muito bem, apesar de ter pouco tempo, sem ter grandes conhecimentos. Era eu sozinho, então fui encarregado de tomar todas as providências. O Governador me apoiou integralmente e me dava toda a liberdade de ir ao Palácio do Governo para conversar com ele. Tanto é que, na minha despedida, dei um almoço na casa de um veterinário alagoano, cujo o nome não me lembro , e o Exmº. Sr. Governador do Estado, Dr. Silvestre Péricles, lá se fez presente.
Relativamente ao incêndio que houve em Alagoas, na ocasião do núcleo, o Governador tinha combinado que eu fizesse uma demonstração antes que eu desse como pronto. Mas aconteceu um incêndio real. Nós tivemos muita sorte porque havia um dos raros hidrantes na cidade que estava com bastante água. O incêndio foi debelado prontamente. No dia seguinte, o Jornal “Diário do Povo” e outros publicavam elogios aos recentes bombeiros, porque costumavam dizer que em Alagoas não tinha água. Como, se havia uma fábrica de tecidos que era abastecida pelo Rio Caeté, que também abastecia uma fábrica na parte inferior da cidade? Tanto é que fui convidado para dar um treinamento nessas fábricas, mas recusei dizendo que não poderia, pois me encontrava à disposição do Governo do Estado de Alagoas”.
CRIAÇÃO DA PRIMEIRA TAXA DE EXTINÇÃO DE INCÊNDIO
Em 01 de dezembro de 1947, poucos dias depois da criação da Formação de Bombeiros, através do Decreto Lei n.º 655, o Prefeito de Maceió Dr. JOÃO TEIXEIRA DE VASCONCELOS, usando de suas atribuições que lhe confere a Lei Estadual n.º 1357 de 12 de novembro de 1947, criou no Município de Maceió a Taxa de Extinção de Incêndio.
A taxa incidia sobre os estabelecimentos Comerciais e Industriais e Prédios Urbanos, e era cobrada nas seguintes bases:
a. 30% do valor do Imposto de Indústria e Profissão, quando se tratar de Empresas ou Companhias que operem nesta Capital no ramo de seguro contra fogo;
b. 10% do valor do Imposto de Indústria e Profissão a que estão sujeitos os demais estabelecimentos Comerciais e Industriais;
c. 5% do valor do Imposto Predial.
A referida taxa seria cobrada conjuntamente com a de Imposto de Indústria e Profissão e do Imposto Predial. O produto da arrecadação da Taxa de Extinção de Incêndio terá aplicação especial, destinando-se exclusivamente ao custeio do respectivo serviço e será recolhida ao Tesouro do Estado, na conformidade das instruções expedidas pela Secretaria da Fazenda e da Produção.
( A taxa de Extinção de incêndio foi publicada no Diário Oficial n.º 9735 datado de 03 de dezembro de 1947 ).
QUARTEL
O Quartel do Corpo de Bombeiros funcionou até 1976, ao lado do Quartel Geral da Polícia Militar na Praça da Independência.
No Comando do Cel JOSÉ MAIA FERNANDES foi projetado o novo Quartel do Corpo de Bombeiros pela arquiteta ZÉLIA DE MELO MAIA NOBRE, com a colaboração dos engenheiros WALTER COELHO BREDA e MARIA HELENA MARINHO DE SOUZA, o qual deveria oferecer instalações modernas dentro das condições locais, econômicas e sociais para que, assim, pudesse atuar de conformidade com o fim a que se destinava.
Partindo desse objetivo primeiro e com subsídios fornecidos pelo Corpo de Bombeiros local e o de Pernambuco e de posse do terreno destinado à referida obra, puderam os técnicos responsáveis pelo projeto elabora-lo com linhas arquitetônicas simples e funcionais.
A forma arquitetônica baseou-se em função do efetivo e número de viaturas estabelecidas e com interligações necessárias. Nesse aspecto foi visto o problema de abrigo para as viaturas bem como a via de mais fácil escoamento e a localização dos alojamentos, apartamentos e refeitórios no sentido de melhor ventilação.
Pelo projeto o Quartel do Corpo de Bombeiros seria construído de cinco partes distintas:
1. Corpo da Guarda;
2. Abrigo das Viaturas;
3. Serviços (refeitório, cozinha, frigorífico etc.);
4. Alojamentos com respectivos cassinos, auditórios, sala de aula etc..;
5. Comando e Serviços Gerais do Quartel de Bombeiros.
A estrutura foi preestabelecida em concreto armado.
Os pisos, com poucas exceções, seriam de INDAIATUBA.
O prédio seria construído na Av. Siqueira Campos, no Trapiche da Barra, nas proximidades do “Estádio Rei Pelé”, com uma área de mais ou menos 2800 m² de construção, com dois pavimentos.
Os serviços já estavam iniciados em dezembro de 1973, conforme matéria do jornal “O MILICIANO” , daquela data, o que estava ocorrendo através da construtora Humberto Lobo Ltda., vencedora da concorrência pública, realizada no dia 16 de novembro desse mesmo ano, e seu custo total estava orçado em Cr$ 2.500.000,00 ( dois milhões e quinhentos mil cruzeiros ), e deveria ser entregue dentro de duzentos e quarenta dias.
Acontece que somente em 09 de novembro de 1976, foi inaugurado esse novo Quartel do Corpo de Bombeiros, no Trapiche da Barra, sendo Comandante Geral da Polícia Militar na época o Cel. PAULO NEY MACHADO RAMALHO DE AZEVEDO, e Governador do Estado, o Prof. DIVALDO SURUAGY.
AS MULHERES NO CBMAL
Seguindo um edital para o primeiro Curso de Formação de Soldados do Corpo de Bombeiros, centenas de garotas fizeram inscrição em fevereiro de 1994, para adentrar por território desconhecido, masculino e diferente. Seriam as primeiras mulheres da Instituição.
No dia 20 de abril do mesmo ano, sessenta e três mulheres enfrentaram pela primeira vez os desafios da profissão que ensina a adentrar em local com fogo, resgatar vidas humanas e, por que não, também salvar animais de alturas e profundezas temerosas.
Assustadas, descabeladas e choronas, sob o monitoramento do então 3º Sargento Wellinghton, as Alunas do Curso de Formação de Soldados Combatentes começaram a aprender a controlar o medo do desconhecido, ter noções de Ordem Unida, Disciplina e Hierarquia, além de lições de companheirismo.
Seguindo as mesmas normas às quais os homens estavam sendo submetidos, praticavam rapel, tirolesa e comando craw em pista montada no pátio interno do estádio Rei Pelé, local onde funcionava o Centro de Ensino e Instrução do Corpo de Bombeiros. Era ali que recebiam aulas teóricas e práticas de Salvamento em Altura, Combate a Incêndio e Legislação Bombeiro Militar.
O pátio do estádio foi testemunha das mais atrapalhadas frases ditas por algumas alunas, como os inesquecíveis “sem cadência, fora de forma, marche!”, “Fora de marcha, forme” ditos por xerifes da semana, achando que tinham atingido a mais plena perfeição do que se pode denominar comando de tropa. Certamente o castigo pelos erros veio em seguida. No entanto, foi com gostosas gargalhadas que as sessenta e três alunas pagaram apoio de frente, ainda sem o joelho no chão, procedimento adotado recentemente para mulheres.
No dia 07 de setembro do mesmo ano, os sessenta e três “cristais do Bombeiro”, denominação dada ao pelotão feminino, foram apresentados à sociedade alagoana num desfile marcado pelo cansaço, valentia e perda de sapatos. A Al Gildete, desfilando garbosamente à frente do palanque oficial, termina por deixar um dos sapatos que acabara de ganhar no corredor da parada militar – não se intimidou e voltou para pegá-lo, provocando risadas escondidas e incontroláveis nas colegas, no então 2º Tenente Erisson, que comandava o pelotão, e em todos que presenciaram a cena. Imaginem alguém desfilando e, ao mesmo tempo, tentando colocar um sapato no pé...
Seguro ficou o sapato da Al Cleize, hoje Cabo, que, com calcanhares sangrando e em carne viva, terminou o desfile sem uma só expressão de dor, o que mereceu o elogio recebido pela resistência.
Foi também durante a parada de 07 de setembro, que se pôde observar a aceitação da mulher no Corpo de Bombeiros pela sociedade quando, ao passar o pelotão cantando o grito de guerra, foi acompanhado por dezenas de crianças e moças que ali estavam presentes, emocionando as alunas.
No dia 29 de novembro de 1994, eram formadas as primeiras bombeiras de Alagoas. Em 1995 Cláudia Maria, Katarina, Dayse, Márcia, Maria José e Shirlane recebiam as divisas de 3º Sargento, enquanto Vanuza, Cleize, Belizângela, Daniela, Ana Rosa, Ana Paula, Valdenize e Edvânia eram promovidas a Cabos femininos.
As mulheres estão capacitadas e treinadas para atuar em qualquer área respeitando os limites pessoais. No Corpo de Bombeiros, ninguém trabalha sozinho, o que reforça a certeza de que as guarnições podem e devem contar com o apoio feminino.
Quando foram incorporadas definitivamente, todo o contingente feminino foi destinado ao serviço burocrático. Somente em 1997, as guarnições de incêndio recebem as primeiras comandantes femininas. Saindo do curso de sargento no final de 96, as sargentos Vanuza e Amélia Sandes passam a concorrer à escala de serviço das viaturas Auto Bomba Tanque e Auto Comando de Área, respectivamente.
Sargento Diana, mesmo sem estar no serviço de combate a incêndio, solicitou permissão e correu com a guarnição para combater o fogo no depósito do grupo de supermercados Bompreço, num dos maiores e perigosos incêndios já ocorridos em Maceió.
A sargento Dayse, pertencente ao Grupamento de Busca e Salvamento, já comandava a guarnição terrestre, enquanto as Cabos Daniela e Ana Paula salvavam vidas na praia.
Sendo hoje uma das funções de maior credibilidade do Corpo de Bombeiros, as Unidades de Resgate contam com o apoio irrestrito e altamente profissional da Cabo Ziziane e Soldados Rosângela, Andreane e Valéria, que incontáveis vezes foram instrumentos na hora de salvar vidas de vítimas de acidentes e de patologias em geral.
Para a médica Terezinha, é encantador ver uma mulher executando funções antes só designada ao sexo masculino. “Me emociono quando vejo uma bombeira na rua junto aos homens. A primeira vez que vi uma mulher num incêndio fui lá, dar parabéns”, diz emocionada.
Para conquistar o território antes masculino, as bombeiras contaram com a luta incessante dessa médica e militante, Terezinha Ramires, que junto a entidades femininas, conseguiu anular o primeiro edital que convocava apenas homens para o concurso do Corpo de Bombeiros. Através de audiências com comandantes e até governador, D. Terezinha, aos sessenta anos, brigou pelo direito das garotas que, aos dezoito anos, eram discriminadas por serem mulheres, terem pouca altura e serem casadas.
“Numa região como o Nordeste, onde a média de estatura da população é baixa, eles faziam restrições quanto ao tamanho das meninas”, lembra a médica.
Em um dos piores momentos dessa luta, as entidades femininas brigaram pela anulação de um projeto que exigia das mulheres um afastamento mínimo de dois anos de relacionamento com homens. Era a discriminação atingindo em cheio a intimidade do chamado sexo frágil.
O governador da época, JOSÉ TAVARES, anulou o projeto. Mais uma luta ganha pelas entidades que, em 1987, conseguiram que a Polícia Militar de Alagoas admitisse em seus quadros, um contingente feminino. Acompanharam aulas e exercícios e em alguns momentos se preocuparam com o fato de que as mulheres pudessem não vir a mudar seu pensamento depois de tanta luta psicológica e verbal relacionadas à vida miliciana.
Em 1998, Luciana, Siderli, Luciglauci, Joseane e Edjelma vieram complementar o quadro de Bombeiros Femininos que atualmente possui um número de cinqüenta e quatro.
Seis anos depois da primeira tarde como bombeiras, percebe-se a ausência das companheiras que buscaram outros caminhos e hoje são alegres lembranças dos meses de convivência.
